O ESTRESSE MATA O TRABALHADOR UM POUCO POR DIA

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O ESTRESSE MATA O TRABALHADOR UM POUCO POR DIA

Minhas maos estao suadas, meus pes, gelados. Hoje vai ser mais um dia sem almoco. O relatorio tem que ficar pronto as duas da tarde, senao a chefia vai me comer o figado. Se meu marido nao tivesse falado daquele jeito comigo, se meu filho estivesse melhor na escola, se eu conseguisse dormir mais, se a minha pele fosse mais bonita Vou me concentrar no relatorio, que ja passa de uma hora. Puxa, que lindo aquele vestido da vitrine! A Paula tambem gostou. A Paula ate que esta melhor agora que Ah, o relatorio. Detesto a cara que o chefe faz quando eu entrego depois do prazo. So o jeito de ele dizer Joana

Esses pensamentos sao ficticios, assim como Joana. Entretanto, a condicao de estresse e algo bem real para milhares de pessoas: desconforto fisico, insonia, ansiedade, dispersividade, descuido ou mesmo disturbio alimentar. E o caminho para sintomas (e doencas) mais graves. Na melhor das hipoteses, vai matando um pouco por dia, solapando a alegria de viver e a capacidade de trabalho.

Quando isso ocorre, gente antes competentissima passa a ser um problema para o empregador: producao baixa, absenteismo, mais despesas medicas, risco de afastamento definitivo. Cria-se um ciclo vicioso: dissipacao de energiafalta de focoestressebaixa produtividade. Em tais condicoes, dificilmente a pessoa cria novas solucoes aos desafios do trabalho. E sofrivel no relacionamento interpessoal e pode estar driblando uma depressao profunda.

Como se sabe, nosso organismo foi feito para enfrentar situacoes tensas. Nos momentos de perigo, nossa fisiologia se prepara para a luta ou a fuga. Passado o perigo, o corpo relaxa e volta ao funcionamento normal. O problema do estresse e que essa preparacao e constante e independe do que esteja ocorrendo la fora. Como o perigo nao passa, nao se baixa a guarda e nao se completa o ciclo preparacaoapicerelaxamento.

Os fatores de estresse sao multiplos, assim como sao tambem multiplas as possibilidades de saneamento e prevencao. Nunca e demais lembrar alguns dos cuidados mais conhecidos: nao espichar a jornada de trabalho noite adentro, manter a mesa de trabalho limpa e desobstruida, usar agenda e organizar no tempo as atividades do dia. Tambem e basico habituar-se a pequenas paradas para reenergizacao, alem de cuidar para que circunstancias externas nao nos assaltem alem de um limite seguro.

Joana esta no escritorio, sentada ha horas, perdida no seu caos interno. Vamos imaginar como e ficar dentro da sua pele: com a respiracao curta e superficial, ela mal percebe que ocupa um espaco fisico. Tem sobrecarga de energia nos bracos, ombros, pescoco e cabeca. Como sao poucas as exigencias de movimento da boca do estomago ate sola dos pes, a circulacao sanguinea fica prejudicada e as pernas, inchadas. Os pes, entao, so sao lembrados porque estao frios.

Ja que e ficcao, vamos dar bem-estar imediato a Joana? Um passarinho lhe contou que, naquelas condicoes, atrasaria duas horas com o relatorio. Entao, pensou ela, por que nao parar quinze minutos para recompor as energias e depois trabalhar melhor e mais rapido? O atraso resultante diminuiria para meia hora.

Como primeira providencia, respirou. Soltou o ar que vinha retendo pela sensacao de panico; inspirou, expirou novamente, inspirou com prazer, expirou. Nessa mexida, ate a barriga, que estava imovel, voltou a ter vida. Dai ela notou que precisava ir ao banheiro ja fazia tempo. No toalete aproveitou para relaxar todos os musculos do corpo. Voltou para sua mesa e tirou os sapatos. Alisou o carpete com a sola dos pes, mexeu os dedos, rodou os tornozelos; esfregou as maos uma contra a outra, se espreguicou, bocejou (ja que e fantasia, ninguem percebia nada). Nesse momento para si, esqueceu o relatorio, o filho, o vestido da vitrine, tudo, para se concentrar apenas no seu corpo. Resolveu observar mais de perto a respiracao e, cada vez que soltava o ar, soltava tambem o peso do corpo onde estava apoiada (as costas, no espaldar, as nadegas e coxas, no acento, os pes no chao). Fez de conta que estava no lugar mais lindo que ja havia conhecido. Sentiu o prazer simples e gratuito que e respirar e ocupar um lugar, um volume so seu, no espaco.

Com a pequena parada, conseguiu o nivel de harmonizacao fisica, emocional e mental suficiente para se concentrar. Isso nao significa que tenha ficado lerda, ou mais passiva do que estava antes. Simplesmente, tomou posse do seu reino o seu corpo.Voltou ao relatorio com total concentracao e nao se esqueceu de um unico detalhe. Terminou antes que o chefe voltasse do almoco. Sentiu-se feliz e realizada.

Parar, respirar, sentir o corpo e apenas um preludio para a meditacao e o relaxamento profundos, mas ja reverte o jogo. Joana passou a fazer isso diariamente e, mais tarde, comecou a frequentar um grupo de meditacao. Conforme o tempo passa, vai ganhando mais clareza quanto a comeco, meio e fim das suas empreitadas, no curto prazo e no longo prazo. Agora tem mais tranquilidade para avaliar o potencial de recursos de que dispoe, discriminar o que lhe falta e sair a busca de complementacao, alem de procurar ajuda profissional. Esta ficando em paz com a auto-estima. Agora a sua presenca e o seu desempenho dao seguranca ao chefe e aos colegas. Joana contribui para melhorar o ambiente de trabalho, mesmo que seu filho continue indo mal na escola e que o marido seja um chato. Alias, mais equilibrada, Joana esta conseguindo equacionar suas questoes familiares. Aumentou a produtividade e alimenta tremendamente a produtividade da equipe. Melhor para ela, melhor para seu empregador.

Na vida real, para um empregado sentir-se bem e dono do proprio corpo, e preciso que ele queira. Tambem sao necessarios varios passos e alguns profissionais para mudar habitos. Mas e necessario, antes de tudo, que a empresa faca a sua parte, aceitando a humanidade do seu capital humano e, portanto, oferecendo condicoes dignas de trabalho. Na vida real, a empresa precisa estar convicta de que mais vale um empregado de bem com a vida do que dois estressados.



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